Como nasceu o futebol que conhecemos hoje?

O esporte – em sua versão com regras claras – só poderia ter se popularizado durante a Revolução Industrial inglesa

Ricardo Garrido 14/06/2018 - 07:00

O famoso momento de tensão

As origens do futebol são objeto de discussão. Para alguns estudiosos, guerreiros chineses por volta de 2500 a.C., na época do imperador Huang-ti, já tinham o costume de disputar peladas com o crânio de inimigos abatidos. “Os crânios – depois substituídos por bolas de couro nos exercícios militares – deveriam ser lançados pelos soldados com os pés para além de duas estacas cravadas no chão. Teriam sido essas as primeiras traves da história”, diz Celso Unzelte em seu O Livro de Ouro do Futebol.

Outros defendem que algo parecido com o esporte era disputado pelos maias desde 900 a.C. Espécie de mistura de futebol com basquete (já que a pesada bola, de 3 quilos, deveria passar por dentro de aros fixados em um muro), durava a noite inteira e não admitia perdedores: o capitão do time derrotado era sacrificado.

O jogo dos maias Reprodução

Há consenso, no entanto, quanto ao período e ao local onde o hábito de chutar uma bola num espaço protegido pelo adversário ganhou organização: a Inglaterra do século 19. O esporte já era famoso por lá fazia pelo menos 500 anos – uma das versões mais populares era o mass football, ou “futebol de massa”: no século 18, cerca de mil pessoas, 500 de cada lado, percorriam quilômetros de ruas de Chester tentando fazer a bola passar por um dos dois portões da cidade, que faziam as vezes de gol.

Um século depois, na época em que o futebol ganhou regras, o país estava em plena Revolução Industrial. Para Hilário Franco Júnior, autor de A Dança dos Deuses – Futebol, Sociedade, Cultura, a institucionalização do futebol reflete ideias que permeavam a Inglaterra da época: darwinismo, formação de elites, produtividade e competição, capitalismo financeiro incipiente, fixação de normas.

Regras

O estabelecimento das regras não ocorreu por acaso. “O progresso do capitalismo pediu um correspondente progresso nas instituições. A época era de padronização em vários planos da vida inglesa”, escreve Franco Júnior. Em menos de 30 anos, a partir de 1846, os ingleses estabeleceram normas para o direito criminal, para as eleições (estão nos chamados “atos constitucionais”) e para sua própria língua (com o inovador Oxford Dictionary) – e também para esportes como o rúgbi e o ciclismo. O futebol ganharia suas regras em 1863.

Um futebolista iniciante ficaria intrigado ao estudar o livrinho que contém essas regras: não importa a edição, nele haverá artigos breves, que compõem as regras essenciais do jogo (dimensões do campo, tamanho da bola, duração da partida, entre outras). 

Nenhum dos artigos, porém, trata de uso de apitos e cartões, numeração de camisas ou tempo de acréscimo. Esses são apenas hábitos que foram sendo incorporados ao longo dos anos, sem jamais terem sido consagrados como “regras”.

Isso tudo é reflexo da Common Law, o conjunto legal inglês formado por hábitos sociais que ganham força de lei sem terem sido necessariamente legislados ou fazerem parte de uma Constituição. Assim, em 1886, apenas 15 anos depois da fundação da Corte de Apelação (o órgão que guarda e aplica a Common Law), surgia a International Football Association Board, entidade que ainda hoje discute, discute, discute – e aprova alguma modernização na prática do futebol. 

Popularização 

Se o caráter inapelável das regras deu unidade ao futebol e teve papel importante em sua popularização, esta foi ainda mais influenciada pelo amadurecimento das correntes de pensamento inglesas que caracterizaram o século 19: o darwinismo e o capitalismo. O primeiro aparece na adoção do esporte pela elite. Ideólogos evolucionistas encontraram no futebol elementos que fariam do esporte um modelo de formação moral, social e política para sua jovem elite.

Logo, o futebol era esporte oficial em Cambridge, em Oxford e também nas escolas privadas. Os futuros governantes do país aprenderiam num campo de futebol a pensar e agir rápido, a adquirir a fibra necessária para se fortalecer. Afinal, só os mais fortes sobrevivem.

Ao mesmo tempo, no entanto, o esporte caiu no gosto do operariado. Enquanto brigavam por seus direitos formando seus primeiros sindicatos, os operários aproveitaram para adquirir o sagrado direito de jogar bola. Em 1871, o ensino fundamental tornou-se obrigatório e as escolas públicas passaram a abrigar a prática do futebol.

Times formados pelos empregados de empresas começaram a ser criados – o Arsenal, de uma fábrica de armamentos (fundado em 1886), e o Manchester United, composto por ferroviários em 1878, são dois exemplos –, com financiamento e treinamento bancado pelos patrões.

Negócio lucrativo

Já em 1883, os jogadores-operários do Black­burn Olympic foram dispensados do trabalho duro na fábrica para receberem treinamento em tempo integral. Como resultado, venceram a Copa da Inglaterra, batendo a elite de ex-alunos de Eton, da cidade homônima. Multidões passaram a acompanhar os jogos – e pagavam por isso. O futebol era o esporte das massas.

Os jogadores-operários do Black­burn Olympic Wikimedia Commons

O público atraído pelo esporte, claro, chamou a atenção de empresários e executivos. Clubes-empresas com capital aberto na bolsa de valores são comuns na Inglaterra desde o fim do século 19. O Arsenal (um dos maiores do mundo), por exemplo, abriu ações na bolsa inglesa em 1891, e 860 pessoas e empresas tornaram-se acionistas.

Àquela altura, empresas já bancavam times em toda a Europa, e a lógica voltada para resultados de seus executivos acabou, inevitavelmente, concorrendo para a contratação de jogadores melhores para fortalecer os times. A condição de profissional para jogadores de futebol foi aceita já em 1885 – até então, os jogadores tinham outro emprego e jogavam apenas nas horas vagas, já que o amadorismo era considerado uma “virtude” essencial.

Em 1905, o jogador Alf Common deixou o Sunderland e foi contratado pelo Middlesbrough, atraído por uma proposta inédita e polêmica: uma comissão de mil libras. Os negócios ficavam complexos, eram necessárias liderança e capacidade gerencial, e essas características sobravam em times ingleses, especialmente no Arsenal, que se tornava o principal deles durante a primeira metade do século 20.

Pragmatismo

Além de teares, máquinas a vapor, processos industriais e movimentos sociais, os ingleses acabaram espalhando pelo mundo aquele que se tornava seu esporte mais popular. A princípio, o futebol foi “exportado” por meio de britânicos a serviço em outros países ou por pessoas que passaram por uma temporada de estudos na Inglaterra.

Caso do paulista Charles Miller, filho de um escocês com uma inglesa, que introduziu o futebol no Brasil após trazer da terra natal de seus pais duas bolas e um livro de regras. Isso explica a significativa quantidade de nomes ingleses batizando os times fundados na América do Sul durante o fim do século 19 e início do século 20, como River Plate (1901), Newell’s Old Boys (1903) e Corinthians (1910).

Embora as autoridades inglesas não recebessem bem o interesse do mundo em seu treinamento para futuros líderes, o pragmatismo falou mais alto. Sem que se perdesse a majestade, em 1871 foi organizada a primeira Copa da Inglaterra, com a finalidade de demonstrar publicamente as regras oficiais do jogo. Apenas times britânicos participavam, e o rei em pessoa presenciava a final e entregava a taça ao campeão.

O investimento deu resultado, os novos entusiastas do futebol adotaram as regras inglesas, mas o principal movimento de organização do futebol aconteceria sem o aval da Coroa. Curiosamente idealizada por um francês e fundada em Paris em 1904, a Federação Internacional de Futebol, a Fifa, sofreu forte resistência da Inglaterra, que só entraria para seu quadro em 1906 – para ficar num entra-e-sai até 1946. Só quando reconheceu o poder da entidade, dispôs-se a disputar seu principal “produto”, a Copa do Mundo.

Mas os jogos entre seleções nacionais já eram disputados muito antes das Copas. Eles começaram com as partidas anuais entre Inglaterra e Escócia, em 1872. Na virada do século, tornaram-se frequentes os desafios entre seleções nacionais, em disputas organizadas pelas federações dos países. Em 1900, o futebol tornou-se esporte olímpico. Desde o século 19, a Inglaterra era imbatível: obteve as medalhas de ouro em 1900, 1908 e 1912 – isso porque não jogou em 1904.

Grande evento 

A primeira derrota da seleção inglesa para um país não-britânico veio em 1924 (4 a 3 para a Espanha). Na mesma época, o Uruguai despontava como grande potência, com duas medalhas de ouro olímpicas e a vitória na primeira Copa do Mundo da Fifa. O surgimento de novas potências fez da Copa o grande evento do calendário esportivo, rivalizando com as Olimpíadas em popularidade e reputação. Da mesma forma, a Copa do Mundo começava a funcionar como uma vitrine para craques desconhecidos, novas técnicas e táticas inovadoras.

O domínio inglês diminuía aos poucos – o Uruguai tomara o ouro olímpico; mais tarde, em uma zebra, os Estados Unidos derrotaram o time inglês na Copa de 50. Finalmente, o celebrado sistema tático WM, marca registrada do futebol inglês, perdeu espaço para o ofensivo 4-2-4 (quatro na defesa, dois no meio-campo e quatro nas posições à frente), adotado primeiramente pela Hungria, sensação da Copa de 54, e quatro anos depois pelo time que tomava forma naquela noite ensolarada descrita no começo desta matéria.

Com certa desordem, aliada às pernas tortas de Mané e à categoria de Pelé, a equipe liderada pelo gordo e pelo engravatado deslocou o eixo dominante do futebol para os trópicos. A partir daí, já devidamente documentado pela televisão e onipresente na vida dos brasileiros, o futebol tornou-se história mais do que conhecida.


Jogo em evolução

Trave e juiz surgiram antes mesmo do goleiro 

1865 – Trave

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Os dois postes que servem de gol começam a ser unidos por uma fita. As traves do gol ficam mais parecidas com as atuais.


1868 – Juiz

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O árbitro, a princípio, não entrava em campo, atuava do lado de fora. Antes dele, as decisões eram tomadas em consenso ou pelos capitães.


1872 – Escanteio

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Até a invenção desta regra, quando a bola saía pela linha de fundo, os jogadores cobravam falta.


1871 – Goleiro

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A primeira menção ao jogador responsável pela defesa do gol surge nas regras. O goleiro, único autorizado a pegar a bola com as mãos, foi a última posição criada.


1891 – Bandeirinhas

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Além dos auxiliares dos árbitros, neste ano nasce o pênalti (não havia a bolinha de marcação, ele era batido de qualquer ponto a 11 metros do gol).


1896 – Tamanhos

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O tamanho do campo (de 90 a 120 metros de comprimento por 45 a 90 metros de largura) e as dimensões da bola (68 a 71 centímetros de circunferência na época) são oficializados.


1878 – Apito

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No mesmo ano em que o travessão de madeira passou oficialmente a unir a trave, o árbitro começa a usar apito. O apito de latão, inventado em 1875, era usado só pela polícia.


1968 – Substituições

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Adotada três anos antes no campeonato inglês, as substituições (duas por equipe) são oficializadas pela Federação Internacional de Futebol. Só em 1994 o número sobe para três.


1970 – Cartões

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Foi apenas na Copa do México que os árbitros passaram a dar cartão amarelo (de advertência) e vermelho (expulsão) para os jogadores.


1990 – Recuo de bola

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Para tornar o jogo mais ofensivo, o recuo de bola para o goleiro, se feito com os pés, passa a ser punido com falta.


Saiba mais

A Dança dos Deuses – Futebol, Sociedade, Cultura, Hilário Franco Júnior, 2007

O Livro de Ouro do Futebol, Celso Unzelte, 2002