As cataratas num barril

Atrás de fama ou de uma causa, não foram poucos os que se lançaram às águas do Niágara. E alguns até viveram para contar

Paula Lepinski 16/05/2018 - 07:00

Annie Edson Taylor, a primeira pessoa de carne e osso a se aventurar na catarata

As Cataratas do Niágara, na fronteira entre Canadá e Estados Unidos, são vistas como o lugar perfeito para turistas, amantes, e (já chegamos lá) aventureiros. Com três cascatas de até 50 metros de altura, é a quarta maior cachoeira do mundo em fluxo volumétrico de água, logo acima das Cataratas do Iguaçu – que são mais altas e mais largas, mas sem o mesmo volume. É o cenário certo para ideias insanas, como descer a queda d’água dentro de um barril. Sim, igual ao Pica-Pau. Aconteceu na vida real.

A primeira pessoa de carne e osso a se aventurar catarata abaixo dentro de um barril foi a americana Annie Edson Taylor, em 1901. Professora aposentada, de 63 anos, teve a ideia para ficar famosa e ganhar dinheiro.

Annie Edson Taylor Wikimedia Commons

Um barril impermeável e acolchoado por dentro era a sua única proteção contra a Horseshoe Falls, porção mais violenta das cataratas. Sobreviveu para contar a história com apenas um corte na cabeça – mas poucos quiseram pagar para ouvi-la. De consolo, recebeu a alcunha de “Heroína das Cataratas do Niágara”.

Seguindo o exemplo

Nas décadas seguintes, 16 pessoas seguiram o exemplo de Taylor, nem todas com sucesso. Do dublador americano Charles Stevens, que enfrentou as cataratas em 1920, só foi encontrado o braço direito. Se a intenção dele era fama, conseguiu: o episódio lhe rendeu alguns minutos no documentário As Mais Estranhas Formas de Morrer, do Discovery Channel.

Mas não é só fama que os aventureiros do Niágara buscam – alguns saltaram com uma causa. Foi o caso da dupla de canadenses Peter Debernardie e Jeffrey Petkovich, em 1988. Queriam mostrar para as crianças que existiam coisas melhores para fazer além de usar drogas.

As Cataratas do Niágara Pixabay

Antes de você se animar, saiba que descer as cataratas é crime. Em 1951, o Parque Nacional do Niágara se viu obrigado a proibir o ato e aumentar a multa para quem pulasse nas cataratas sem permissão – de meros US$ 100, hoje pode chegar a até US$ 10.000.

Sem impedimento

Mas isso não foi impedimento para aventureiros, como o canadense David Munday, que sobreviveu à façanha em outubro de 1985, após ter sua primeira tentativa espetacularmente frustrada pela polícia – a qual contatou a hidroelétrica acima das quedas para diminuir o fluxo do rio, fazendo seu barril metálico entalar. Na investida seguinte, ele desceu. Mas queria mais: continuou a ser pego, preso e a persistir até seu segundo sucesso, em 1993.

David Munday ao lado do barril usado para descer as cataratas Reprodução / tourniagarafalls.com

O americano Kirk Jones, que já havia descido as cataratas sem equipamento algum em 2003, decidiu tentar a sorte novamente em 2017, desta vez munido de uma bola inflável. A sua sorte, parece, havia sido gasta na primeira vez: o corpo foi encontrado 19 quilômetros rio abaixo. Lembrando que um ser humano não foi a primeira criatura a descer as cataratas num barril. Em 1901, um gato chegou antes. E sobreviveu.