Roberta Miranda, uma feminista diferenciada: "Nunca admiti que me faltassem o respeito"

Em novo DVD, a Rainha do Sertanejo celebra 30 anos de carreira comemorando a participação feminina no estilo que a consagrou

Tatiana Bandeira 05/07/2017 - 16:27

Durante 25 anos eu ficava: cadê as mulheres cantoras? Cadê e agora estamos celebrando essa invasão feminina', diz Roberta, sobre a gravação do DVD 'Os Tempos Mudaram

Com 1,66cm, Roberta Miranda, a Rainha do Sertanejo, cresce no palco e reina mais uma vez no DVD “Os Tempos Mudaram”.  Mas majestades estão a salvo do lugar-comum. O material, gravado ao vivo, em São Paulo, no Dia Internacional da Mulher, traz Roberta cantando ao lado de artistas que vem dado novo fôlego ao gênero que muitos chamam de “feminejo”. Conta com os vocais de Simone & Simaria, Solange  Almeida, Naiara Azevedo, Maiara & Maraisa, Day & Lara e Marília Mendonça. “Os Tempos Mudaram” traz sete músicas inéditas mescladas a clássicos de Roberta, como “Vá Com Deus”, “Boate Azul” e “Majestade O Sabiá”, que ganham versão especial com todas as participações reunidas.  Primeira cantora brasileira a vender mais de um milhão e meio de discos, marca alcançada já no álbum de estreia, Roberta é considerada a Rainha do Sertanejo. Com 24 álbuns lançados, a artista é uma das recordistas de vendas no Brasil e é um dos nomes mais celebrados da música. 


Conversamos com ela sobre as participações das “novas” princesas do ritmo, que, hoje, são responsáveis por colocar a mulher em uma posição normalmente ocupada por cantores ou duplas masculinas. Quem responde é a mesma Roberta que aparece nas redes sociais: uma figura espontânea, de vozeirão que inunda uma sala, alegre. Ela conta um pouco a gênese de “Os Tempos Mudaram”, projeto que foi idealizado há cerca de dois anos,  gestado aos poucos por Roberta, justamente uma das precursoras da participação feminina no sertanejo, como diz ela, dominado então por “bota e chapéu”.  

 




Porque os tempos mudaram? Você diz na letra de “Os Tempos Mudaram” que a mulher é independente, que bebe, bate, e joga o homem pra fora... Como você enxerga a  mulher de 2017?

Hoje em dia essas cantoras que surgiram, Simone e Simaria, Marília Mendonça, Maiara e Maraísa, Naiara Azevedo e tantas outras, você percebe com elas, e por meio da letra delas, que não existe a tolerância que existia há tempos atrás. Através da música é dado esse recado. O homem já vai ali para namorar ou ficar de forma diferenciada. “Opa... Aqui a gente vai tratar com amor, vai tratar bem, vai dividir as coisas da casa”. Teve uma mudança geral. Hoje você vê que as mulheres não têm tempo, elas trabalham, viajam demais, e quem fica com os filhos? É o companheiro. No caso, se tiver companheiro. E realmente, vejo a partir da minha família, tenho sobrinhos jovens de 15, 18, 20 anos, que ajudam suas esposas, fazem as coisas em casa. Essa nova geração está muito mais carinhosa, mais leve mesmo. Hoje nas letras das meninas [as cantoras e compositoras que participam do DVD] existe um empoderamento que não é “vem pra cá me maltratar, pegar o que é meu, dar uma de esperto, que aqui não dá”. Esse empoderamento não é só na música, é na vida social, no trabalho. Tudo demora. A meu ver demorou muito. Olha, tenho 30 anos de carreira. Eu nunca admiti que me faltassem o respeito. E fico observando que agora é que começaram os primeiros passos da mulher realmente se entender, entender que ela é o poder. A partir do momento que você sente que tem o poder, o outro que se f*, que vá para a puta que pariu. Se não te respeitar, é claro.

 

Você se considera feminista, Roberta?

Tem que entender que, se sob a ótica do outro isso for a mulher ficar independente, poder mostrar o poder que ela tem, a mulher não aceitar promessas mentirosas, a mulher não ser espancada, não ser agredida verbal e fisicamente – se isto é ser feminista, eu sou feminista diferenciada. Porque ainda creio num companheiro, num homem legal, num homem que respeita. Acredito no pai do filho de uma mulher, no companheirismo. Ainda acho que ele [o homem] tem uma função bastante importante na vida do casal. Já foi o tempo que se dizia “atrás de um grande homem existe uma grande mulher”. Ou, há alguns anos atrás, “ao lado de um grande homem há uma grande mulher”. Agora não, à frente de um grande homem, é a mulher. Porque a mulher tem esse poder. Tem dois tipos de mulheres, a que ergue o homem e a que derruba, acaba com cabeça do homem e joga ele no lixo. Então, essa mulher que ajuda o homem, é de que forma? Ele tá trabalhando, ela tá em casa, cuidando dos filhos ou cuidando da comida. Ou não tá cuidando, ou tá conversando, dividindo as coisas. Porque a mulher não nasceu só pra cozinha. Ao contrário. Já foi o tempo. Então hoje ela percebe que ela tem o poder. Quando ela percebe isso, esse tipo de homem [machista] recua. Eu não estou generalizando, estou falando de tipos. A formiga sabe em qual roça andar, caso contrário, ela morre envenenada [se referindo aos homens].

 

Você deve ter sofrido muito preconceito no início da carreira por ser mulher e paraibana. Como conseguiu se impor nesses 30 anos no meio sertanejo em frente às rádios, gravadoras... Aos teus pares mesmo?

Sempre bota e chapéu... Sempre muito preconceito. Tive que, literalmente, dar muita porrada. Um dia eu subi em cima da mesa na Continental porque o cara queria entrar na minha música. E eu voei nele. Disse que aquilo eu não permitia. Eu sou a dona da minha música. Falei “não admito que você faça isso. Ele disse, “eu só gravo se...”. Repliquei, “se, não”, não tem “se”. Então, não grave. E assim, da minha parte, fui educando esse mundo que achava que para gravar música de uma mulher era preciso alguém entrar como parceiro. Na minha, não entra mesmo. Entrou só uma vez, pra nunca mais. Eram condições nojentas, asquerosas. Fora uma vez que estava trabalhando para 100, 80 mil pessoas, e ouvi um músico dizer:  “epa, o que essa jacu tem para tanta gente ficar aqui aplaudindo todas as músicas?” E eu ouvindo, porque meu ouvido é absoluto até hoje. Quando terminei o show, disse pra ele: “A jacu, a partir desse exato momento, quer que você vá embora agora. Porque é daqui que sai o seu ganha-pão. Se você não tem satisfação como artista, tocando a sua bateria, então, não trabalha comigo, porque não sou obrigada a trabalhar com um monte de metralhadoras e facas apontadas para as minhas costas”. Isso tudo muito diferente de hoje, porque atualmente tem a mordomia, né? Hoje os artistas têm o seu jatinho. Eu não, trabalhei anos e anos e anos ali, no carro, em estrada. Chegava perto do show, e onde encostava, dormia, porque tinha que subir no palco, tinha que cantar, e até chegar no hotel e tomar um banho... já tinha que ir pra outro lugar. E ainda tinha que ouvir bobagem de pessoa que você está empregando? Que é músico? Porque quando você sobe no palco, meu amor, ali se passa de tudo. Você é artista, você precisa cuidar da sua arte, e isso é coisa de Deus. E ter de ouvir isso? Ah, aí não dá.

 

Recentemente a atriz Robin Wright, que faz par com Kevin Spacey na série House of Cards, descobriu que, ao contrário do que os produtores da série haviam dito pra ela, embora seja tão protagonista quanto o Kevin, ganha bem menos do que ele. Isso chegou a acontecer com você? Teu cachê era menor do que os homens cantores e compositores no início da tua carreira?

Aconteceu muito. Muito. Eu, no primeiro disco, ninguém acreditava na Roberta Miranda, ninguém, então eles fizeram um cala boca ali. Disseram, “vamos dar um disquinho pra ela”. Houve  ano que cheguei a ter cinco canções estouradas nesse país, com diversos tipos de artistas [interpretando], e fiz um contrato irrisório. Quer dizer, nos 12 anos que vendi milhões e milhões e milhões de discos, foi quase aonde eu não ganhei. Sabe por que eu era enganada? Porque eu só tinha um sonho, de ser conhecida, e a parte financeira ficava em segundo plano. E não tinha nessa época a minha empresária que é a Célia Morattori, que está há 26 anos comigo. Não tinha ela pra administrar [a carreira], com a honestidade dela, com a decência dela, com a corrida contra o tempo que ela fez comigo.  Porque eu fui roubada por ex-empresária, que se juntou com minha advogada. Fizeram um horror na minha vida. Mas isso não me intimidou. Ao contrário. Então fui embora. Eu sempre tive muita fibra. Tenho uma música que diz “quem passou o que eu passei, hummm...” [canta].

 

Hoje imagino que teu cachê seja equivalente a outras estrelas ....

Não, elas hoje cobram 450 mil, cobram 300 mil, um Wesley Safadão, dizem, cobra 700 mil. Tenho um pessoal que trabalha com ele, que cobre toda a segurança dos carros blindados dele, que ele leva de porta a porta, que é de 1 milhão a 1,3 milhão [o valor dos shows]. Eles ganham milhões e milhões. Por quê?. O investidor mete milhões em um artista e é claro que esses milhões têm que retornar pra ele porque toca, toca, toca, toca em todos lugares e isso reverte em shows. Nós tivemos a consciência, como muitos artistas, de baixar o cachê pra poder trabalhar. Já andei com 40 pessoas, voltei pra 35. Depois, fiquei com 25 pessoas por quase 18 anos. Agora estamos com 15, 16 pessoas na produção. Mas não abro mão de qualidade. Meu DVD  custou quase R$ 1,5 milhão. Só o cenário custou R$ 860 mil.  Então, dei o que há de melhor porque pra isso lutei. Com uma diferença. Hoje, muitos artistas ganham em alguns meses o que eu levava um ano para ganhar. E neste meu DVD não tive apoio. Procurei empresários arquimilionários. Neste DVD conheci o que é o egoísmo. O que é o cara que é doente, o cara que tem fortuna, e não hora de investir em uma cultura não dá apoio. Aí olhei pra mim e disse: "Roberta, você é uma babaca, uma débil mental, uma imbecil". Porque, com muito menos, faço uma lista de ajudamensal. De planos de saúde, de socorrer as pessoas. Eu ajudo muito. Tenho um lado social meu de gratidão que nasceu comigo. Por exemplo, a Vanda Alves Sobrinho, na casa dela nasceram mais de 120 sucessos, incluindo “Majestade, o sabiá”, “Vá com Deus” etc. Ela me viu, literalmente, sendo despejada, na rua, e disse “venha pra minha casa”. E eu fui. Eu a chamo de mãe. E prometi pra ela que, quando me tornasse sucesso, aonde nesse mundo fosse, a levaria comigo.  E ela caminhou o mundo comigo. Só deixou de viajar porque quis. Em tudo ela está, porque eu homenageio ela em tudo. Então isso é uma questão de caráter, de você entender o outro. E é uma das coisas que eu falo nas redes sociais. Odeio gente ingrata. Posso estar apaixonada loucamente por alguém, mas  se perceber ingratidão comigo... Primeiro vou lá conhecer a família. Se trata bem o seu pai, se trata bem a sua mãe, se trata bem a família, porque se não tiver respeito por pai e mãe, não é por mim que vai ter. Porque um mau filho é um mau amigo, não é um bom marido, não é um bom companheiro. Se ele é péssimo como filho, ele não presta. E como ele vai prestar pra mim? Tenho algumas "sacações" que são minhas, que guardo pra mim. Mas não sou uma Santa Roberta. Na hora que falhou comigo, esqueça que eu existo. A mesma intensidade do amor que eu tenho é a mesma intensidade que eu tenho de negar a pessoa. Eu não a conheço quando falha comigo.

 

Teu público mudou muito nesses 30 anos?

Meu fã é meu oxigênio, sem eles eu não vivo. Mas meu público é muito fiel. Por onde passo nesse país saem de seus estados, longe, e vão aplaudir a artista deles. O que aconteceu, principalmente depois dos Instagram, e isso apareceu em uma pesquisa, é que tenho fãs principalmente em duas faixas etárias nas redes sociais (Roberta tem mais de 1 milhão de seguidores no Instagram). A primeira é de 20 a 30 anos.  Em segundo, de 18 a 25 anos. Tá bombando! E, meu amor, já estou tirando com fãs da terceira geração. Fui agora fazer um show e um criança dentro do avião tirou foto comigo.

 

O que te marcou nestes 30 anos? 

É muita coisa... Nos anos 80, a maior emoção foi ter entrado duas canções minhas onde não entrava sertanejo: no Rio de Janeiro e no Norte e Nordeste. E, depois, ter sido espelho pra essa meninada que está chegando hoje.

 

Você se sente disputando com essas meninas? Ou tem espaço pra todas?

Imagina, isso é coisa pra imbecil, pra inseguro. Jamais. Em 30 anos de carreira, consagrada pelo povo... Primeiro, não é da minha essência ter inveja. Segundo, não é da minha essência passar a perna para meu colega cair lá na frente. No meu histórico, não existe isso. Existe agradar, ser carinhosa, dar conselho, é isso que existe. Tanto que elas fizeram uma farra maravilhosa na gravação do DVD e foi lindo. Teve lágrimas, teve sorriso, teve tudo, porque elas tem certeza que e eu as amo. E não tem concorrente, tem colo de mãe.

 

Planos pro futuro? O que vem por aí? Livro, filme?

Fiquei muito contente de ser embaixadora da Dragões da Real, escola de samba que ficou em segundo lugar no Carnaval de São Paulo, e contará a história da música sertaneja no enredo de 2018, dando destaque para o que a Roberta Miranda fez. E agora vem o livro e o filme, mas não posso adiantar mais detalhes. Estamos buscando financiamento, procurando atriz. Olho todo mundo imitando, não conseguem me imitar (risos). Não consigo imaginar ninguém me interpretando.

 

Você se imagina com 50 anos de carreira, como o Roberto Carlos, por exemplo?

Ele é meu grande espelho, é meu amor. O Roberto é meu espelho em tudo, na minha vida pessoal, na minha vida profissional, em tudo. Então, como ídolo, tento agir como ele. É notável como ele ama o que faz. Bom, eu não sabia que ia chegar nem em 5 anos de carreira, imagina em 50. Minha arte vai até onde Deus permitir.

 

O que te dá medo?

Avião. Tenho pavor. Venço com 18 anos de terapia e remédios.

 

E o que te faz descer do salto, da tua majestade?

É falta de caráter. E me subestimar, me faltar o respeito. Aí vem a paraibana à tona. Dou-lhe porrada (gargalhadas).

 

“Os Tempos Mudaram”

kit com CD e DVD  - preço: a partir de R$ 36,90

Gravadora: Sony Music